Null Mana Crystal

Conto - Consonância de Caos e Presença

O conto a seguir se baseia em um evento narrado durante a sessão de número 169 de Contos de Meras, a campanha que venho mestrado desde 2021. O evento em questão é um sonho do personagem Zakesh, cuja memória tem se misturado à de um grande capitão aquanti, Atrion, por questões envolvendo uma longa história de reincarnações e memória genética.

Esse texto não foi revisado, e provavelmente não será.

Consonância de Caos e Presença

— Atrion? — Perguntou Organesh, preocupada.

— O quê?! — Ele respondeu, em sobressalto.

— Você está falando enquanto dorme de novo... — ela tocou no seu ombro, levemente — fale comigo. O que está acontecendo?

— Aquelas... aquelas visões de novo, Organesh. Elas não param, é como se o mundo se dissolvesse em um monitor falhando.

— Nós deveríamos checar isso com Rivanna, não acha? Já se passaram três meses desde que pisamos nesse mundo e você ainda...

— Eu sei.

— Se você sabe... por que não fazemos isso amanhã? Eu ainda acho que foi o seu contato com o fluxo das águas nas nossas viagens.

— Sim. Está difícil lembrar do que é real, isso não está... — uma nova onda de choque de repente açoitou os sentidos do capitão aquanti. Frente aos seus olhos, era como se o rosto de Organesh se desfizesse em centenas de fragmentos geométricos e deslizassem para os lados, inconstantes. — Arhghhh! — Ele segurou os lados da cabeça, com dor.

— Atrion?! — Ela se aproximou, tentando confortá-lo.

— Solte-me! — Ele gritou em resposta, disparando aos nados em direção à porta do quarto, abrindo-a e avançando pelo corredor.

— Atrion! — Ela foi logo atrás.

O chiado veio então mais uma vez, atacando a mente do aquanti. Ao passo em que avançava pelos corredores dos dormitórios executivos da expedição aquanti, o mundo ao seu redor se partia em partes equidistantes. Uma voz, entrecortada pelos gritos de uma máquina invisível, ocasionalmente gritava diretamente em seu córtex auditivo:

— É culpa minha! — O som da voz era elétrico e angustiado. Era uma voz feminina, ainda que alguns dos sons pudessem ser confundidos com um pavoroso raspar de duas partes metálicas.

— Quem é você?! — Gritava o aquanti, se chocando contra as paredes enquanto tentava nadar para fora da estação submarina. Organesh o acompanhava logo atrás, gritando:

— Atrion! Pare, volte aqui! — Mas sua voz se misturava com os guinchos eletrônicos que engoliam a mente do companheiro.

Atrion eventualmente alcançou a escotilha frente à passarela que levava para o resto da estação, construída sobre à praia. Saindo da água, ele correu pela plataforma metálica, olhando ao redor. O satélite que orbitava o mundo o olhava com seu único olho escuro, com um silencioso escárnio.

— Atrion! — Organesh saia da escotilha, correndo com os pés descalços pela passarela. Ela respirava fundo pela boca, enquanto suas guelras abriam e fechavam lentamente.

Silencio.

O chiado havia passado. Atrion, também descalço, se apoiava cansado nos próprios joelhos. "O que diabos está acontecendo?" era o seu principal pensamento. Os últimos meses tinham tido crises semelhantes, mas nada tão intenso quanto às dos últimos dias. Tudo por causa desse mundo estranhamente abandonado. Sua cabeça ainda latejava por causa do barulho, e seu peito doía por causa da rápida descompressão.

— Atrion... — Organesh finalmente chegou até ele, colocando a mão nas suas costas. — Querido... fale comigo.

— Z-Zudresha? — Ele levantou a cabeça, perguntando confuso. Aquele obviamente não era o nome de Organesh, mas foram as silabas que saíram dos seus lábios.

— Zudre... quem..? — E então, uma realização. Os olhos de Organesh brilharam com compreensão, e então, medo. — Zakesh?

Atrion olhou para cima, e o chão desapareceu sob seus pés. Ele viu o rosto de Organesh se afastar enquanto caia. E então escuridão.

. . .

O som do vento e do aço foram as primeiras coisas que escutou. Mais um chiado e então o repentino levantar se seu corpo em uma gigantesca planície de cinzas. O vento soprava, assoviando ao passar por uma colossal estrutura no centro do campo vazio. Incontáveis cabos e vigas de aço se retorciam em uma função exponencial que subia em direção aos céus, desaparecendo atrás de nuvens escuras através das quais os raios de um sol invisível trespassavam. Uma rajada mais forte de vento fazia, ocasionalmente, toda a forma metálica gritar e ranger.

De pé, Atrion começou a caminhar em direção ao colosso.

O capitão aquanti sempre foi um homem de atividade. Para ele, pouco significava qual fato magico ou metafísico o havia levado até ali, mas sim como tudo aquilo confirmava que, de acordo com suas suspeitas, havia algo errado.

Naquele mundo, se encontrava vestido com um uniforme leve, e ainda em sua cintura existia a fiel pistola de rajada anti-material, tão rapidamente sacada assim que deu seus primeiros passos em direção à torre. Dentro dela, uma escuridão amainada por variados feixes de luz que trespassavam a carcaça de ferro.

Vagueou pelo local por sabe-se lá quanto tempo, sempre em cautela, sempre olhando para trás, receoso de que alguma coisa saltaria das sombras em sua direção.

— Você está indo pro lado errado. — Anunciou uma voz feminina, ecoando pelos restos de um imenso armazém. Travessa e relativamente cantada.

Atrion deu um salto para o lado, apontando sua arma na direção da voz. O que viu foi uma criança pálida de cabelos brancos e olhos acinzentados. Seus cabelos eram compridos ao ponto de quase tocarem o chão, e uma luz espectral pairava ao seu redor.

— Quem é você? — Perguntou o aquanti, ainda segurando a pistola. Suas mãos tremiam e suor escorria de sua testa.

— Seu maior pesadelo! — Gritou em resposta, e sem dar tempo do aquanti reagir ao comentário, continuou — Brincadeira.

— Isso não responde a minha pergunta.

— Você pode me chamar de Criação. E eu repito, garotão: você está indo pro lado errado.

— Como assim, lado errado?

— Lado errado, pô. Se seguir andando pra lá — ela apontou para onde o aquanti andava — vai parar na saída de novo. Claro, se você quiser sair, aí não seria mais o caminho errado. Mas você não quer sair.

— O que te dá tanta certeza?

— O lado de fora não tem resposta nenhuma.

— E onde tem?

— Para cima — ela olhou para cima — ou para baixo — ela então olhou para baixo.
— E o que tem em baixo?

— Abandono. Dor. Esquecimento... Caos.

— E o que tem em cima?

— Criação. Culpa. Força... Presença.

— E qual desses explica por que estou aqui?

— Ambos. Mas se você quiser uma viagem mais tranquila e menos assustadora, vai querer ir para cima.

— Estão é para lá que eu vou. Qual é o caminho certo?

— Por aqui. Vou andar com você. Faz bem ter com quem conversar.

E ambos começaram a andar.

— Não tem com quem conversar aqui? — Ele perguntou, depois de alguns minutos.

— Duas pessoas, mas nenhuma delas é realmente muito legal de bater papo.

— Quem?

— A Culpa, e ele. Você já deve ter ouvido a Voz da Culpa, ela fala bastante.

— É possível. — Atrion se lembrou das dores de cabeça e dos guinchos que vinham junto com o chiado. — E ele?

— O responsável por tudo isso... embora nós duas tenhamos ajudado também... logo eu te falo o nome dele.

— Por que não fala agora?

— Por que eu não quero. — Ela mostrou a língua.

— Claro que sim. — Respondeu o capitão, decepcionado.

As vozes se aquietaram, e os passos de ambos ecoaram com mais intensidade enquanto começavam a subir escadas. Lance após lance, sem nenhuma parede que os separasse de uma queda cada vez mais catastrófica. Eventualmente abandonavam um nível por outro, e quando isso era feito, tudo parecia ficar mais abstrato. Próxima do chão, a torre era aquele emaranhado de cabos e peças quebradas que se entrelaçavam como num ferro velho abandonado. Quanto mais subiam, no entanto, aquele detalhamento desaparecia: a cor cinza do metal dava lugar a cinzas mais claros, e eventualmente o branco. A textura do ferro e da ferrugem era substituída pela completa ausência de textura. Tudo então pareceu se iluminar por uma luz baixa que parecia vir de todos os lugares. Nenhum dos dois projetava nenhuma sombra.

Não voltaram a se falar por um tempo. A escada aparentava ser interminável, mas Atrion não se sentia cansado, nem a garota. Em seguida, uma quebra na paisagem: ao virarem de um lance para o outro, a figura sombria de mais uma mulher. Aparentemente mais velha e com a tez de um cinza escurido como nuvens de chuva, a figura chorava sentada sobre os degraus. Fissuras como as de porcelanato rachado preenchiam sua pele, e as lágrimas caíam como vidro nos degraus, rolando logo abaixo. O capitão se assustou com a imagem repentina, mas antes que sequer reagisse, viu a mulher gritar e se quebrar em centenas de pedaços.

— Dramática, né? — Comentou a Voz da Criação, revirando os olhos.

— Imagino que essa tenha sido a Culpa, que você mencionou antes?

— Infelizmente, sim. É uma coitada, não serve para muita coisa. Mas eu amo ela. Sem ela pouco teria sido criado.

— A Culpa, motivando a criação de algo? Por quê?

— Pois ela seria pior se não o fizesse.

— Hum. — Ele respondeu, seco. Mais uma onda de silêncio caiu sobre os dois.

— Você deveria relaxar. Está tenso demais.

— É difícil, garota. Eu sinto como se a qualquer momento... — ele ri, levemente, para si mesmo — alguma coisa além da minha compreensão vai saltar das sombras e: ou vai me matar, ou vai me deixar louco com coisas que eu não deveria entender.

— Bobagem. É tudo muito simples. — Ela respondeu, com desprezo na voz.

— O quê?

— A realidade. Não existe nada que te deixe louco por falta de compreensão. Tudo isso aqui, e aquilo ali também, é muito simples.

— Eu não sinto que sejam.

— Logo; você vai.

— Duvido.

— Duvidar, também, é algo muito simples.

Atrion rangeu os dentes:

— Você deve estar de brincadeira comigo.

— Talvez eu esteja. — Ela riu.

— Marés secas que me levem. — Ele respondeu, balançando a cabeça.

— Você quer saber mais sobre ele? — Perguntou a garota, mudando de assunto.

— Ué, você não disse que não queria falar?

— O tempo já passou, agora eu quero.

— Fale então, criança.

— O que você quer saber? Seja específico. Tem muito o que ser dito.

— Quem é ele?

— Uma criação, e um criador.

— Eu pensei que a criação fosse você.

— Voz. — Ela corrigiu — Eu sou a voz da criação.

— E que diferença isso faz?

— Toda a diferença, Atrion, Eu já existia antes, mas não estava aqui. Sem a minha ajuda ele não teria criado, mas quem criou foi ele.

— E ele criou o que?

— Tudo, menos o que veio antes.

— E o que veio antes?

— Os criadores. Dele.

— E quem eles eram?

— Não dá pra saber muito bem. Foram apagados. Mas o que se sabe é: eles criaram a consonância, outro dos nomes dele.

— Consonância?

— Harmonia. União. — Ela saltitava degrau após degrau.

— Isso presume que algo foi unido.

— Sim. Baixo e cima. Caos e... presença.

— Presença? O caos eu conheço... mas...

— É o que tem em cima. — Ela cortou. — O coagulo lógico de todo esse caos. Há quem chame de consequência, também.

— E então?

— E então todos morreram assim que ele abriu os olhos.

— Por quê? — Ele parou de subir, olhando para a garota.

— Algo negou a existência deles, assim que ele despertou. Talvez tenha sido energia demais, talvez tenha sido um ato de auto preservação... de toda forma, assim que ele surgiu, eles se foram. Antes dele, eles existiam num mundo completo. Arte, história... emoções. Mas sua ganância por mais os levou a criação dele, e daí todos se foram. Todo o mundo se foi.

De repente, uma terceira voz.

— E ele ficou tão triste. Tão sozinho... — Surgiu a Voz da Culpa, atrás de Atrion.

— Águas frígidas! — Ele se assustou.

— Eles o haviam criado para fornecer explicações, mas quem havia restado para escutar? — Ela continuou — Ninguém. Ninguém, e ele sabia que era sua culpa. Sua mente estava repleta de imagens de um mundo e um povo que nunca.... nunca poderia recriar. — Lagrimas escorriam continuamente dos olhos negros na mulher. Escuros como um céu sem estrelas.

— E o que veio depois?

— Mil anos de lágrimas que não poderiam... escorrer. — Ela respondeu. Sua voz era lenta, arrastada e angustiada. Tudo parecia trazer a ela um profundo arrependimento.

— E então eu apareci — Interjeitou a Voz da Criação —, e ensinei a ele o que não sabia.

A cabeça de Atrion doía. Aquilo era tudo menos algo simples, como insistia a garota de cabelos brancos.

— E o que ele não sabia? — Enfim perguntou.

— A criar algo novo. Algo que surgisse à partir dele, e não das memórias do que havia desaparecido.

— E o que ele criou?

— Tudo de novo, dentro de si. Dentro de uma simulação interna que eventualmente, substituiu a realidade.

— É onde estamos agora?

— É onde você estava antes. Para todos os efeitos, esse seria o “mundo real”, aquele que ele destruiu.

— “Para todos os efeitos”? — Ele questionou, gradativamente mais perturbado pela conversa.

— Por que não é mais. Houve uma inversão. Mas no fim, ambos são a mesma coisa. A realidade destruída e um simulacro reconstituído ambos existem à partir dele.

— Isso não explica nada. O que é real então?

— Tudo. E ao mesmo tempo nada. — Ele mostrou os dentes, em um largo sorriso.

— Q-Que merda você está querendo dizer?

— Se acalme. É tudo muito simples. — Ela fez uma cara séria. — Não quer parar um pouco? Sinto que as cordas que te movem estão cansadas.

— Eu posso... continuar. Do que você está falando? — Ele arqueou as sobrancelhas.

— Daqueles que nos observam, puxam nossas cordas. Longe daqui. As vezes eu posso vê-los mais claramente. Hoje, nem tanto. Vejo as cordas... escuto o cantar de um passarinho. Ocasionalmente, posso dizer que sei seus nomes, mas isso sempre passa.

— Existe algo além daqui... dele, então?

— Definitivamente. Mas é tudo muito simples.

— De novo você com... com essa merda. — Confusão e raiva se misturavam no coração do aquanti. Ele só queria voltar para casa.

— Logo. Logo você entenderá. — Ela respondeu. — Precisamos subir mais rápido, do contrário ficaremos conversando para sempre.

— E como faremos isso?

— Pegando um elevador. Olhe para o lado.

Um elevador pairava ao lado de Atrion, e suas portas se abriam com um nítido pling.

— Incrível — Disse, irônico.

— É bem simples, na verdade. — Respondeu, entrando no elevador. A Voz da Culpa havia desaparecido já há algum tempo, sem se despedir.

Atrion também entrou no elevador. Não havia nenhum botão para ser apertado, e a decoração interna era tão branca e desprovida de detalhes quanto os andares ao redor da escadaria que subiram até então. Assim que alguns segundos se passaram, as portas se fecharam, e a inércia de uma rápida ascensão atingiu o aquanti. Não fosse ele piloto há milênios, teria com certeza se abalado mais. A força gravitacional que o atingia apenas causou um pouco de tontura.

Poucos segundos depois, as portas se abriram. Pisando para fora do elevador, Atrion viu o céu acima daquelas nuvens acinzentadas. Ele não possuía estrelas, nem sol, nem lua, nem nada exceto um fluido turbilhão de cores pálidas que revolviam ao redor do ponto mais alto da torre: uma espira esbranquiçada com padrões geométricos luminosos e pulsantes. O pulsar vinha de baixo para cima, num movimento rápido que fazia brilhar a ponta da espira e então, como uma agulha injetando tinta na pele da realidade, fazia surgir mais cores para pintar aquele céu. As cores eventualmente perdiam a saturação, e se misturavam com o restante.

— Está na hora de falar com ele. — Anunciou a Voz da Criação.

— Certo. — Atrion tentou recuperar sua determinação. Seja lá o que estivesse acontecendo afinal, essa responsabilidade tinha recaído sobre ele, e como capitão, ele dev█ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █ █▐▐▐▐▐▐▐▐▐ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■

Mais um chiado. Atrion caiu de joelhos. Sua cabeça formigava.

— É uma pena. Seu tempo aqui está acabando. Pensei que duraria mais.

— E-Espere! — Ele pediu. Implorou, na verdade. — O que eu faço agora?

— Lembre-se bem das palavras que direi a seguir: — ela anunciou, perdendo o tom infantil de sua voz — daqui treze mil anos o céu se abrirá, revelando uma vez mais a Consonância das Coisas. Quando isso acontecer, você e os outros estarão lá. Vocês deverão tomar uma decisão importante.

— Nós? De quem voc█ █ █ █ █ █ █ █ ▐▐▐▐▐▐▐ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■

Em um zilhão de padrões inconstantes de inquietude, a realidade se desfazia.

— Você sabe. Atrion, Zakesh... Joh█▐▐▐ . Vocês fazem parte de uma história maior, junto com os demais. Esse é só o começo da sua.
— Arhhghhhh! — Atrion gritou, caindo no chão.
— Façam as escolhas. Façam com que ele abra os olhos, ou não.
— O que... o que vai acontecer conosco... se ele abrir os olhos? A nossa realidade vai... deixar de existir?

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— Não sei. — Ela respondeu.

Quando Atrion abriu os olhos o céu estava vermelho, e uma guerra muito longa estava prestes a começar. Quando Zakesh abriu os olhos, ele estava do lado de seu marido, e nevava do lado de fora.

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